Sobre a imprensa Abolicionista
- Beatriz Assis
- 22 de out. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 20 de ago. de 2022
A escravidão foi um capítulo sangrento e tortuoso da história brasileira. Sendo implantada no ano de 1535 com o primeiro navio negreiro atracado ao porto de salvador, teve seu fim marcado apenas 355 anos depois, classificando o país como último das américas a largar o regime. As cicatrizes deixadas por esses três séculos não foram passadas em branco - Resistências foram proliferadas por todos os cantos do país, evidenciando a insatisfação de povos retirados de suas terras e família. Insatisfação essa expressa não somente por meios físicos como o quilombo e capoeira, mas, utilizando das palavras como arma de propagação. A imprensa tratou-se de um veículo ao qual apoiadores do abolicionismo fizeram uso para divulgar suas ideias e apatia para com a escravidão.
A imprensa tem como função divulgar, informar e representar um povo, sempre acompanhando a evolução da população e sociedade. Ao citar essa organização no meio nacional, a ideia de atraso vem à mente, já que, o Brasil somente obteve sua imprensa instaurada oficialmente ao encalço de sua independência política, divergindo do ritmo de outras colônias americanas como Peru, e EUA que usaram de jornais para afirmar o poder colonizador. O ano de 1808 foi marcado pela abertura da imprensa brasileira com a publicação do chamado correio brasiliense, elaborado em terras europeias e carregando uma identidade não muito condizente com a população, ainda não tinha um “rosto” de fato brasileiro
Cerca de 1/3 da população brasileira era constituída de “pardos livres” com apenas uma pequena parcela de senhores. Especificando ao estado do Rio de Janeiro, com uma população de 206 mil habitantes, sendo escravos 79 mil deste número. Nota-se uma relação de 38% de pessoas denominadas negras ou mestiças. Mesmo com uma grande parte da população não considerada branca, a imprensa realizou uma cobertura da rotina do imperador, afirmando uma descendência minoritária europeia, reforçando crenças de uma elite que insistia em desenhar um Brasil pluralmente europeu, excluindo uma boa parte dos residentes do país. Um jovem imperador sendo colocado nos holofotes a vista de um povo negro, mestiço e analfabeto, cenário este visto por olhos que não se sentiram representados.
No ano de 1833 na cidade do Rio de Janeiro foi elaborado a primeira produção de cunho abolicionista: Um pasquim chamado “Homem de cor’ carregando denúncias de discriminação, trazendo informações ao público geral com a população negra como protagonista, mas, desta vez não para ser ofertada como objeto de venda e uso, mas sim, vista como humanos iguais. Foi publicado na região chamada de Largo do rocio (hoje conhecida como praça Tiradentes) tendo a presença negra marcante. Suas influências aumentaram com o reconhecimento populacional de Machado de Assis, negro e talentosíssimo escritor da época, creditando ainda mais a capacidade intelectual de pretos e pretas, cuja sua existência era descredibilizada por crenças escravocratas.
O segundo reinado brasileiro, também conhecido como império do café, teve dois grandes momentos de sua imprensa: Período de 1840 a 1860 marcado por um discurso mais conservador e o período de 1868 um pouco mais brando. No ano de 1840 encontram-se pequenas marcas de escravos em produções jornalísticas. A produção chamada “Treze de maio” (1840-1862) tinha sua tipografia tocada por negros escravos cujo senhor era Honório José, explicitando, mesmo que de forma indireta, a contribuição essencial que tiveram os não brancos no meio da informação. 1868 foi o ano em que o gabinete liberal de Zacarias de foz e Vasconcelos foi posto à prova, era conhecido como porta-voz da liberdade religiosa e da emancipação.
Em setembro de 1850 a lei Eusébio de Queirós gerou medidas mais duras dentro do tráfico negreiro, estancando os escravos dos senhores e aumentando o afluxo de escravos dentro do país, fazendo com que a prática fosse mais requirida, já que a produção de café não havia diminuído, situação marcada como antecedente de um grande percursor da ideia abolicionista, um ex-escravo chamado Luiz Gama.
Ao final de 1860 em São Paulo, Luiz Gama publica em jornais da época suas opiniões e ideias contra a escravatura, o que torce narizes em todos os cantos do estado. Luiz, mostra aversão ao governo imperial e escravocratas, recrutando advogados e homens a favor de sua luta para engrandecer ainda mais o movimento. Ele trabalha juntamente com o ilustrador Angelo Agostini, produzindo folhas ilustradas contra o regime, como por exemplo O diabo coco (1864) e Cambrião (1866). Em 1870 com a insuficiência da regulamentação da lei do ventre livre, Gama elabora o centro abolicionista de São Paulo, cujo objetivo era propagar ainda mais as ideias anti-escravocratas.
Influenciadas sob as ideias de Luiz, em Pernambuco no ano de 1876 é elaborado o jornal “O homem” com propagandas de índole abolicionistas, com nível intelectual sofisticados que desbancavam teorias racistas com fatos, além de citar a importância dos indígenas na herança brasileira. 1882 é marcado pela morte de Luiz de gama. Antônio de Bento de Souza e Castro torna-se outro nome importante para a imprensa abolicionista.
Antônio atua em um contexto em que as resistências de escravocratas se sedimentarizam, juntamente com a falta de efetividade da lei dos sexagenários. As fugas dos escravos se tornam mais constantes, dando impulso ao ativista de criar a chamada ordem dos caifazes, um sistema que ajuda nas fugas de escravos, gerando rotas mais seguras e eficazes. Antônio dizia em suas publicações que para que o Brasil entrasse no rol de países civilizados, a escravidão teria de ser extinta.
Bento usava como veículos outros jornais, publicando pequenos artigos, porém, muitos desses veículos tinham uma visão de extremismo vida de Antônio, o levando para outro meio de publicação. O jornal chamado Redempção, denunciava de forma explicita maus tratos aos escravos, colocando nomes de senhores e até autoridades policiais, com relatos sobre castigos, torturas e sofrimentos dos próprios escravos. A produção de folhas abolicionista era feita no interior da faculdade de direito do Largo são Francisco, artigos como: Diário popular e A província de São Paulo eram publicados.
José do Patrocínio foi outro grande contribuinte a imprensa abolicionista com sua Gazeta da Tarde. José disse me uma de suas publicações: “A escravidão é um roubo e todo dono de escravo é um ladrão. Além de suas publicações, Patrocínio elaborava grandes eventos de cunho anti-escravocrata em que captava bens para a compra de liberdade de escravos. Em 1883 inaugurou a confederação abolicionista do Rio de Janeiro. Um de seus grandes feitos foi a chamada “limpeza das ruas” onde intimava os grandes senhores do centro da cidade a libertar seus escravos, com a ameaça de ter seus nomes publicados no jornal.
A imprensa não foi responsável pela abolição de escravidão no Brasil, porém, foi um grande veículo de expressão dentro de um contexto social desigual e desumano. Até hoje a imprensa segue com seu papel social, de dar voz aos mais desprovidos de oportunidade de serem ouvidos.

FONTES: H
OTSUKA,ALEXANDRE. Memória da imprensa abolicionista;
Martins, Ana Luiza; Luca, Tania. História da imprensa do Brasil;
FERNANDES MACHADO, HUMBERTO. Imprensa e abolicionismo no Rio de Janeiro;
MAGALHÃES PINTO, ANA FLAVIA. Imprensa negra no Brasil do século XIX;


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