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HOMO SAPIENS 1900 - A perversa faceta científica eugênica

  • Foto do escritor: Beatriz Assis
    Beatriz Assis
  • 26 de nov. de 2021
  • 10 min de leitura

Atualizado: 20 de ago. de 2022


Reprodução: Documentário Homo Sapiens 1900

Os seres humanos em toda sua história buscaram a constante evolução, seja ela científica, tecnológica ou de produção, procurando sempre deixar marcas de seu progresso constante. Mas, existe algum limite para a busca por aprimoramento? Que aspectos da vida humana devem ser alvos de pesquisas para melhoramento? Seriam os próprios humanos figuras de base para esses estudos? O documentário Homo Sapiens 1900, aborda questões como estas, além de adentrar em camadas mais profundas da ciência e bioética. Dirigido por Peter Cohen – Sueco e diretor de outros documentários históricos como “Arquitetura da destruição” - Foi uma produção lançada em 1998, época em que assuntos como biogenética e clonagem estavam em circulação na sociedade. A ovelha Dolly foi fruto desta grande intensidade de pesquisas na área biológica, ela se tornou o primeiro mamífero a ser clonado no ano de 1997, o que abriu debates no meio científico para a manipulação de genes humanos. O grande conglomerado de pesquisas, abriu feridas de acontecimentos oriundos do começo do séc. XX, acontecimentos esses que deram origem a temática do documentário – A eugenia e limpeza racial.

A eugenia, foi um conceito em que trabalhava a questão do aprimoramento do ser humano. Qualificava características do homem para categorizar as pessoas que teriam bons traços para continuar a propagar seu material genético, outras tendo suas características físicas ou intelectuais consideras indignas de serem passadas por gerações. Por mais controversa que a ideia se mostre, muitos adeptos dela construíram pesquisas e testes para propagar ainda mais a questão de limpeza racial pelo mundo. A visão de humanidade é perdida por parte dos cientistas da área, que apesar de alegarem que seus esforços são em prol do bem-estar social, por muitas vezes comparam humanos “não desejáveis” com ervas daninhas que devem ser extinguidas, observando-os apenas como obstáculos da evolução do ser humano. Com o crescimento de pensamentos e pesquisas que incentivavam o uso do homem como objeto, a bioética foi uma disciplina essencial contra esse tipo de prática. Após atrocidades acontecidas na segunda guerra mundial, principalmente contra judeus nos campos de concentração, a prática da ética em laboratórios é vista como parte essencial para a realização de uma ciência limpa.

O documentário aborda de forma detalhada a busca incessável do homem a sua imagem perfeita, uma verdadeira projeção de sua ambição. Suas “falhas” tanto mentais quanto físicas o deixam aborrecido, a ponto de buscar o aperfeiçoamento da raça em crenças cientificas deturpadas. A arte é até hoje uma das principais ferramentas de autocontemplação humana, dando impulso a iniciativas de aperfeiçoamento da espécie, fazendo com que por muitas vezes, humanos vivam com a frustação de não alcançar as expectativas que eles mesmos criaram à sua imagem.

A natureza sempre foi uma incógnita para os seres humanos, algo indomável, e a mais sútil possibilidade de controlar o incontrolável excita a mente curiosa do homem, afinal, quando o medo do desconhecido se torna curiosidade a ciência entra em ação. “O que a natureza faz às cegas, devagar e impiedosamente, o homem pode fazer com cuidado, rapidez e carinho.” Frase de Francis Galton, antropólogo inglês, que acreditava na teoria de seleção natural controlada, alegando que os seres humanos não evoluem rapidamente por conta de pessoas “inferiores” procriarem em maior volume. O cientista tinha a ideia de que a sociedade poderia ser comparada a um jardim, onde ervas daninhas (seres inferiores) deveriam ser retiradas da raiz. O objetivo no meio acadêmico de Galton, era levar essa ideia como ciência, a qual ele chamou de eugenia. Existia a divisão na prática eugênica – A eugenia positiva e negativa – A primeira baseava-se na procriação entre os chamados seres superiores, sendo eles responsáveis pela nova prole aperfeiçoada da humanidade. A segunda opção por sua vez, era evitar que pessoas inferiores procriassem.

A teoria, carregava bases científicas lamarckistas, uma via contraria as ideias de Mendel, pois acreditava-se que o meio ambiente é o principal moldador genético, carregando assim a validez do princípio eugênico. “Se o recém-nascido demonstra ser um fraco ou se o bebê é deformado, os médicos provocarão a sua morte, talvez com uma pequena dose de morfina.” O médico alemão Alfred Ploetz afirmou em 1895, criando o termo “higiene racial”, que se baseava na seleção positiva (de bebês) acompanhada de uma purgação. Ploetz incentiva a criação de uma chamada “nova ciência”, mesclando a medicina para fins sociais, a eugenia agora torna-se de fato um assunto visto com mais seriedade e expectativa da sociedade alemã.

A população agora vê a ciência não somente como ferramenta de observação da natureza, mas agora como uma força que pode intervir e ajustá-la ao seu bel prazer. A ideia de ter o homem trabalhando como seu próprio agente moldador, cria novos pensamentos, crenças e comportamentos dentro da massa social. Movimentos que produziam uma maior consciência corporal ganham força, como a prática nudista. “O vestuário acaba com o processo o processo de seleção” diz Richard Ungewitter, pioneiro do nudismo alemão, que acreditava na cultura da nudez para que a força e saúde humana possam de fato se unir, “Para o corpo humano alcançar a perfeição, para gerar o homo sapiens, o modo de vida ideal temos que recrutar os serviços da consciente reprodução humana” completa Ungewitter, defendendo sua posição junto a ideia de reprodução controlada.

A “nova ciência” não se restringe apenas as fronteiras europeias, nem mesmo as fronteiras da ciência, tendo a arte como um fator de expressão de mudança. Um filme estadunidense, chamado “a cegonha negra” retrata conceitos eugênicos em sua construção, expõe a história do doutor Harry Haiselen e sua forma de lidar com bebês deformados: “Às vezes, salvar um a vida é um crime maior do que tirá-la” frase exposta na produção cinematográfica, mostrando como as ideias eugênicas estavam ganhando raízes cada vez mais fortes. Ainda no continente americano, Charles Davenport, o chamado pai do movimento eugênico nos EUA defende seus princípios - “Se o homem pudesse ser levado a se apaixonar com inteligência, se a procriação humana pudesse ser feita igual à dos cavalos, a maior revolução progressista da história pudesse ser alcançada” - O eugenista, fundou um instituto para pesquisa em Long Island, tinha como meta estabelecida criar um serviço nacional de registro eugênico. Ele propagava suas ideias aos mais diversos cantos da sociedade, chegou a treinar trabalhadores rurais para visitar cadeias, asilos e hospitais psiquiátricos a fim de estudar e documentar traços hereditários inferiores.

Estudiosos eugênicos como Davenport, baseiam seus princípios nas teorias raciais e conceitos de degeneração, tornando uma campanha contra negros e imigrantes, considerando-os impuros. De certa forma a eugenia possibilitou que certos preconceitos pudessem ser praticados sem nenhum tipo de repúdio, já que poderiam usar da ciência como desculpa prévia. No ano de 1907, a primeira lei de esterilização compulsória foi aprovada na américa, dezenas de pessoas são esterilizadas. Em outro continente as ideias eugênicas também ganham força, em 1922, na Suécia, foi fundado o primeiro instituto oficial do mundo de biologia racial, dando força para que doze anos depois a lei de esterilização fosse aprovada por unanimidade no país. O instituto que era localizado em Uppsala, foi fundado por Herman Lundborg, que tornou o local um centro de pesquisas raciais, acumulando material de milhares de dimensões físicas suecas, em busca de hereditariedades chamadas de heranças positivas e negativas.

Na Alemanha, os grandes feitos catalogados pelos suecos, são alvo de admirações da comunidade eugênica de todo país. O instituto Upssala firma ainda mais as relações Suécia-Alemanha, escrevendo um jornal redescobrindo pesquisas alemãs sobre origem racial. A população de ambos os países sente orgulho de suas raízes nórdicas, aumentando ainda mais a sede por uma população mais “pura”. A higiene social é cada vez mais vista como sinônimo de bem-estar, engenheiros sociais são alertados para o bem coletivo da sociedade, sempre buscando reforçar que a prole pura deve ser preservada, e a ideia de que indivíduos inferiores não devem procriar e cada vez mais forte, usam a desculpa que o bem da nação deve estar acima do individual.

Em sequência de novas pesquisas e estudos, em 1927 abre o primeiro instituto alemão de biologia racial em Berlim, utilizando da antropologia como um carro chefe de suas expedições cientificas. “No instituto Kaiser Wilhelm de antropologia, a hereditariedade humana, eugenia e a higiene racial têm um novo lar” De acordo com Eugen Fischer, presidente do instituto sua tarefa é “Investigar a conexão entre hereditariedade, meio ambiente e cruzamento e incentivar medidas sociais que beneficiem indivíduos racialmente saudáveis”. A abertura do instituto abrangeu também, a “5° conferência internacional de pesquisa de hereditariedade” em Berlim, nela o americano Hermann Joseph Muller, anuncia uma grande descoberta genética: o raio x de cromossomos pode causar mutações. A descoberta abala um dos fundamentos da teoria lamarckista. Outro americano, chamado Raymond Pearl nega que haja qualquer prova que a teoria eugênica é real, ele diz que “90% dos indivíduos bem-dotados tem pais com habilidades médias ou até inferiores, logo a esterilização seria contraproducente”. Essas alegações impactam o meio acadêmico eugênico, mas ainda não marcam seus rompimentos com suas ideias de aperfeiçoamento humano.

Cada vez mais, a eugenia toma proporções e influência no meio científico, mesmo com veracidade questionável. Na união Soviética, o interesse por essa ciência é evidenciado: Com a morte de Lênin, o neurologista Oskar Vogt é convidado para estudar o cérebro do líder, com o objetivo de encontrar diferenciações hereditárias que carregava em sua morfologia. Vogt funda um instituto para pesquisa de cérebros em Moscou, onde reúne cérebros de indivíduos dotados, com o interesse em saber os fundamentos da inteligência. O interesse eugênico está dirigido ao cérebro e ao intelecto na União Soviética, buscam as raízes da genialidade em árvores genealógicas, dividindo indivíduos por sua capacidade e inteligência, reforçando que pessoas que não tinham habilidades intelectuais plausíveis, não seguissem com a procriação de seu gene, que segundo estudiosos, era fadado a estagnação da evolução humana.

Em contraponto, na Alemanha a aparência e o corpo eram de fato, áreas requisitadas na pesquisa eugênica, buscando referências de ideal de beleza no passado grego e nórdico. “A encarnação do bonito e do bom só pode ser alcançada através da reprodução racial” diz Hans Gunther, antropólogo, foi um grande propagador de competições para definir padrões de beleza. Ao lado de Gunther, um personagem já mencionado da ciência eugênica o acompanhava nas competições: Eugen Fischer. A celebração da beleza e padrões eugênicos, vai de encontro com o outro lado da chamada “nova ciência”, são em manicômios e hospitais psiquiátricos que a repugnância do corpo imperfeito agrega nos argumentos a favor da higiene racial, marginalizando e ridicularizando um corpo fora dos padrões, objetificando o portador de deficiência como uma escoria da sociedade.


“O partido nacional socialista foi o primeiro a adotar a higiene racial como bandeira de seu programa” Refletia o líder eugenista alemão - Fritz Lenz - que mais tarde embarcava na equipe de base científica nazista. “Enquanto vejo um risco, que nos movimentos extremos psicopatas possam ter um papel destrutivo, Hitler é o primeiro político realmente influente a ter compreendido a importância higiene racial e estar disposto a lutar por ela.” Hitler foi de fato um líder político que instaurou os princípios eugênicos em meio a sua prática de governo, utilizando da ciência como desculpa para realizar atrocidades com povos diferentes de seus padrões arianos, marcando com sangue a prática cientifica de sua época.

As ideias eugênicas conforme o tempo foi passando, foi sendo dividida em várias vertentes de pensamentos. Muitos estudiosos tinham como foco aperfeiçoar a produção da sociedade, já que acreditavam que a vida e o trabalho andavam lado a lado de forma que, seres superiores teriam seu desempenho físico e mental no máximo, para aumentar sua produtividade. “Com inseminação artificial um pai bem-dotado pode produzir dez mil filhos” diz Serebrovski, e ainda completa: “A ciência que pode maximizar a produtividade do nosso país e isso só é possível com o socialismo” O geneticista, abre as ideias da eugenia com a extinção da família, com o argumento que a procriação não deve ser algo intrínseco com o amor, pois a procriação é responsabilidade da sociedade. “O desenvolvimento requer saúde e crianças dotadas e a sociedade tem o direito de exigir um produto de qualidade” Finaliza Serebrovski. Nesse momento dos estudos eugênicos, o ser humano é reduzido a uma ferramenta de trabalho para gerar mais produção, crianças são vistas realmente como produtos e a família é algo que não interessa ao ponto de vista produtivo.

Serebrovski foi alvo de diversas críticas após suas afirmações. Através do jornal Izvetstia, Kremlin o criticou com um poema que satirizava as ideias do geneticista, marcando no ano de 1930, o fim do movimento eugênico na União soviética. Na Alemanha, a eugenia positiva vai de confronto com os ideais de família ditos por Hitler, já que, em teoria a eugenia seria a favor da separação de amor e reprodução, com isso, a eugenia negativa ganha mais força no meio alemão. No ano de 1943, mais de 40 mil alemães são esterilizados a força e 100 mil são mortos, marcando a eugenia como um horror que na prática é mais um veículo idealizado para matar pessoas “indesejadas.” Os EUA rompem com as ideias eugênicas no momento que se põe contra a Alemanha na segunda guerra mundial, coloca-se em desfavor as ideologias e lideranças alemãs, a esterilização na américa, começa a recuar. Em 1944, na Suécia, competições de crianças “ideais” ainda são propagadas, uma pequena chama de eugenia que se apagará no futuro próximo, com a morte de Hitler e seu autoritarismo macabro.

“Oh, essas novas ciências, essas ciências que ainda falam a linguagem das hipóteses, e que ainda não se libertaram do poder da imaginação” Diz Emili Zola a mais de cem anos atras. O documentário fecha seu raciocínio com o incansável desejo humano de controlar tudo que o controla. A eugenia foi uma parte da história da humanidade que nos mostrou que a inteligência de pessoas não é a comprovação de sua ética e humanidade, viu-se médicos, geneticistas, antropólogos e outros líderes da massa intelectual, ir de encontro com ideias de extrema maldade com seus iguais, proliferando barreiras inexistentes na raça humana, querendo submeter a relação de seres superiores e inferiores.

Até hoje, tem-se a raiz de ciências preconceituosas na humanidade, fruto de ignorâncias e crenças cegas no que acreditam ser o humano ideal. Muitas vezes a eugenia no século 21 se fantasia de “práticas na genética humana”, com técnicas de pré-natal que buscam encontrar deficiências em bebês antes de seu nascimento, tendo a opção de aborto vinda dos pais. Ao submeter o valor humano a características exteriores, como a cor da pele, sua aparência ou alguma deficiência, marca-se o retrocesso da espécie, pois, sem pluralidade e diversidade humana, não existiria uma evolução positiva. A história é feita de pessoas, culturas e corpos diversos, deve-se observar a raça humana como algo único e muito bem relacionado.

BIBLIOGRAFIA

COHEN,Peter. HOMO SAPIENS 1900, YOUTUBE, 2013, Acesso: 25 de outubro de 2021.

43° MOSTRA INTERNCAIONAL DE CINEMA, Homo Sapiens 1900, Acesso em 28 de outubro de 2021.

JAZEDJE, Tatiana, CLONAGEM: O QUE APRENDEMOS COM DOLLY?, 2004, São Paulo.

DINIZ, Debora. Guilhem Dirce, O QUE É BIOÉTICA, 2017, São Paulo

GUERRA, Andréa , DO HOLOCAUSTO A NOVA EUGENIA DO SÉCULO XXI, 2006, São Paulo

BAPHISTAS, Antonio, A EUGENIA DE HITLER E O RACISMO DA CIÊNCIAS, 2006, São Paulo

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